domingo, 22 de junho de 2014

Sabedoria inesperada

Ele caminhava pela rua, camisa amassada, olhos inchados, cigarro entre os dedos, pés trocados.
Brigara com a vida, questionava os acontecimentos, duvidava de que existia algo maior de que tanto falavam. Estava sozinho. Procurava um bar para jogar de uma vez a dignidade no lixo.
Sentou-se na cadeira mais empenada e fez o pedido.
Enquanto bebia seu primeiro grande gole chegou uma senhora, daquelas bem velhinhas, que deveria estar na cama com um frio daquele...
- Quer comprar uma bala, filho?
- Não, obrigada.
- Só uma, pra ajudar...
- Tá...quanto é?
- Dois reais
-Tá bom, toma aqui.
- O senhor quer mais alguma coisa?
- Não, só isso.
- Nem uma conversa?
- ...?
- Filho, ninguém pode ficar assim, com essa cara, e estar bem.
- ...!
- Todo mundo tem problemas, filho. A vida não é injusta com ninguém. Cada um tem sua cruz, seu carma, suas dívidas, chame do jeito que quiser. Eu tô aqui, vendendo as minhas balas pra completar o dinheiro do mês, a aposentadoria não dá...
- É...tá difícil mesmo...
- Mas ficar assim não resolve. Ou resolve? Seus problemas sumiram com esse copo?
- Não...
- Nem os meus somem se eu ficar me lamentando, reclamando com Deus. Ele é sábio, sabe o que precisamos e o que merecemos.
- Mas às vezes é bom pra esquecer um pouco, distrair a cabeça.
- Sim, moço, seria verdade se o senhor estivesse fazendo isso sorrindo. Mas desse jeito, sei não.
- A senhora sai na rua e conversa com todo mundo?
- Não, moço, só com quem precisa.
- E a senhora acha que eu estou precisando?
- Moço, se o senhor não está precisando de uma boa prosa, não sei de mais nada nessa vida.
- Rsrs
- O senhor faz a sua parte?
- Como assim?
- O senhor faz a sua parte? Faz alguma coisa pra mudar o que não está bom ou só bebe mesmo?
- Não...nem bebo, não. Foi só...sei lá.
- A vida nunca tá errada, moço.
- É? Às vezes parece que está.
- Não, não está. A vida é como um vaso de planta. Colocamos a semente que queremos, cultivamos, regamos e depois colhemos.
- Vaso de planta???
- Sim.
- Só isso? Um vaso de planta? É assim que a senhora define viver?
- Sim, plantar e colher. Simples, né?
- Sim, simples demais até! Não sei...
- O senhor tem definição melhor?
- ...
- Tem?
- Não, nunca parei pra definir a vida assim, em poucas palavras.
- E o senhor acha pouco? O senhor já foi no campo? Já viu terra ser tratada, adubada, semente colocada?
- Não, sempre vivi na cidade.
- Então vá um dia. Lá de onde eu venho é assim. Tratamos a terra, cuidamos com carinho, escolhemos bem as sementes de qualidade, colocamos elas na terra como se fossem dormir, regamos todos os dias, que é pra que fiquem fortes e esperamos. A vida trás de volta o que colocamos ali.
- ...
- Claro que temos chuvas, secas, vendavais, mas terra fértil e boas sementes sempre dão bons frutos. É igual na vida, moço.
- E por que a senhora saiu de lá?
-A vida me trouxe pra cá. Vim trabalhar em casa de família.
- E está aposentada, então?
- Sim, juntando dinheiro pra voltar pra minha terra.
- Mas está muito frio pra senhora ficar na rua, está tarde.
- O senhor está melhor agora, moço?
- Sim, estou.
- E foi o gole?
- Não...rs
- Então meu coração tá quente, moço. Não sinto frio quando isso acontece.
- Posso ajudar a senhora em alguma coisa?
- Sim, pode sim.
- É só dizer!
- Vá pra casa, filho. Olhe bem pro seu vaso de planta e veja o que precisa mais nele. Se são boas sementes, ou uma rega melhor, se precisa trocar as sementes, só não dá pra trocar de vaso, não agora. Escolha bem e a vida te dá bons frutos.
- Sim, senhora, obrigado.
- Eu que agradeço, moço. Não é qualquer um que dá conversa pra uma velha de madrugada. Fez bem pra mim.
- A senhora quer a leve em casa?
- Não, filho, meu caminho é curto até lá.
- O senhor quer que eu leve o senhor?
- Não, tudo bem. Estou bem.
- Então vou seguindo, filho. Fique com Deus.
- Obrigado, a senhora também.

E ele pagou o que tinha que pagar e saiu. Não mais trôpego, nem desiludido.
Já nem sabia mais se estava mesmo sozinho no mundo. Ficou uma impressão de que o tal algo maior de que tanto falavam, tinha enviado alguém.
Era melhor correr pra casa, tinha um vaso de plantas pra analisar.

Silvia Mara